10/13/2025

Em outubro de 1717, nas margens do Rio Paraíba do Sul, no vilarejo de Guaratinguetá (SP), três pescadores — Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves — lançaram suas redes em busca de peixes para o banquete em homenagem ao conde de Assumar, governador da capitania. Após várias tentativas sem sucesso, eles retiraram primeiro o corpo de uma pequena imagem de terracota escurecida e, logo depois, a cabeça que se encaixava perfeitamente. A partir daí, os peixes abundaram no rio. A imagem, que media cerca de 36 cm, foi reconhecida como uma representação da Imaculada Conceição, e passou a ser chamada de Nossa Senhora Aparecida — “a que apareceu”. O achamento ocorreu em um Brasil colonial escravista, marcado pela exploração econômica, pela profunda desigualdade social e pelo sofrimento do povo negro escravizado, trazido à força da África. Nesse contexto de opressão e fé popular, o culto à Virgem Aparecida se espalhou rapidamente entre os pobres, os escravizados e os marginalizados — os que viam na imagem uma mãe que acolhia todos, independentemente da cor, condição ou origem. Os milagres atribuídos à santa reforçaram essa devoção. Um dos mais antigos e simbólicos é o do escravo Zacarias, acorrentado e castigado por tentar fugir. Diante da imagem da Senhora Aparecida, ele teria pedido libertação — e as correntes se romperam milagrosamente. Esse episódio, amplamente difundido na tradição popular, tornou-se um símbolo de liberdade e dignidade humana num tempo em que a escravidão era sustentada até por parte da própria elite católica. A cor escura da imagem — originalmente causada pela argila e pelo tempo no rio — também foi interpretada como um sinal de identificação com o povo negro e com os pobres. A “Santa Morena” tornou-se, assim, um ícone de resistência e esperança em um Brasil dividido entre a casa-grande e a senzala.

Nenhum comentário:

Postar um comentário