Falar dos rios e da vida ribeirinha em Gurupá é tocar no verdadeiro coração e na identidade do município.
Em Gurupá, as estradas são de água, o ritmo do tempo é ditado pelas marés e a vida acontece na intersecção entre a floresta e o imenso complexo estuarino do Rio Amazonas.
Aqui está um panorama detalhado de como funcionam os rios, os furos e a vida das comunidades ribeirinhas na região:
A geografia de Gurupá é desenhada por um labirinto de águas.
O município fica na margem direita do Rio Amazonas, mas o grande diferencial do seu território é a presença da gigantesca Ilha Grande de Gurupá, cercada por uma infinidade de rios menores, braços e canais.
Os Furos: Na Amazônia, "furo" é o nome dado a canais naturais que ligam dois rios. Em Gurupá, furos como o Furo do Marajó e o Furo de Gurupá são verdadeiras avenidas fluviais. Eles encurtam caminhos para as embarcações que navegam entre o Rio Amazonas e a região marajoara ou o Rio Xingu.
Rios e Igarapés Locais: Rios como o Pucuruí, Moju, Baquiá e Itatupã cortam o interior do município, abrigando centenas de famílias em suas margens.
Diferente do ecossistema de terra firme, a maior parte das comunidades ribeirinhas de Gurupá vive na várzea, um ecossistema que sofre a influência diária das marés.
O nível da água sobe e desce duas vezes por dia por conta da proximidade com o oceano (maré de água doce). Os ribeirinhos organizam suas vidas em função disso: o momento de pescar, de navegar para a cidade ou de colher o açaí depende inteiramente de a maré estar "cheia" ou "seca".
As casas ribeirinhas são tradicionalmente construídas de madeira e suspensas sobre estacas (as palafitas), calculadas milimetricamente para que a água das marés mais altas de inverno (as chamadas marés de lançamento) passe por baixo do assoalho sem inundar as residências.
Os rios e as matas de várzea de Gurupá são extremamente generosos e sustentam a segurança alimentar e a economia local.
Gurupá é uma potência na produção de açaí nativo de várzea. Nos meses de safra, a paisagem dos rios muda com o vaivém dos "paneiros" (cestos de palha) cheios do fruto, que saem dos furos e igarapés em pequenas rabetas (barcos a motor) em direção aos portos da cidade de Gurupá ou para abastecer barcos maiores de Macapá e Belém.
O estuário do Amazonas em Gurupá é uma área de transição riquíssima.
Das águas ribeirinhas saem peixes nobres e fundamentais para a mesa local, como a dourada, o filhote, a gurijuba, o tamuatá e o próprio camarão da Amazônia, capturado artesanalmente com armadilhas de talas de palmeira chamadas "matapis".
Em Gurupá, o barco não é um luxo, é uma necessidade básica.
São os meios de transporte individuais ou familiares.
Motores pequenos acoplados a canoas de madeira que levam as crianças para as escolas ribeirinhas, transportam os doentes até os postos de saúde ou levam a produção agrícola para a feira.
Como Gurupá não tem ligação por estradas rodoviárias, a conexão com Belém, Macapá, Breves ou Porto de Moz é feita por grandes navios e barcos motorizados de dois ou três andares.
A viagem pelos rios é uma experiência cultural à parte, com redes armadas lado a lado e o comércio que se desenvolve nos portos flutuantes.
O ribeirinho de Gurupá detém um conhecimento profundo sobre a natureza.
Eles sabem decifrar o tempo pelo canto dos pássaros, conhecem o poder medicinal das plantas de várzea e respeitam os mitos e visagens dos rios, como a Mãe-d'água, o Boto e o Curupira.
Essa forte ligação com o território também se reflete na organização social: o município possui fortes áreas de Reserva Extrativista (RESEX) e comunidades quilombolas reconhecidas ao longo dos rios, onde o manejo da terra e das águas é feito de forma comunitária e sustentável, garantindo que o paraíso ecológico de Gurupá continue vivo para as próximas gerações.
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