5/30/2026

CABANAGEM por GILVANDRO TORRES













A Cabanagem foi uma revolta popular ocorrida na província do Grão-Pará entre 1835 e 1840, durante o Período Regencial no Brasil. Considerada uma das revoltas mais radicais e violentas da história brasileira, é também a única em que os revoltosos assumiram efetivamente o poder político da província, mesmo que temporariamente.

O movimento recebeu o nome de "Cabanagem" porque a maioria dos revoltosos era composta por pobres que viviam em cabanas às margens dos rios da região amazônica. Esses "cabanos" incluíam indígenas, mestiços, negros libertos, ribeirinhos e camponeses explorados.

Causas da Revolta

A Cabanagem surgiu de múltiplos fatores de insatisfação:

  • Abandono do Grão-Pará pelo governo central após a Independência do Brasil (1822)
  • Autoritarismo do presidente provincial Bernardo Lobo de Sousa, que foi assassinado no início da revolta
  • Condições de trabalho escravizantes para a população ribeirinha e indígena
  • Exclusão política das classes populares das decisões da província
  • Desigualdade social extrema entre a elite comercial e a população pobre


O Desenvolvimento da Revolta

Na madrugada de 6 de janeiro de 1835, os cabanos tomaram Belém do Pará, assassinando o presidente da província Bernardo Lobo de Sousa, o vice-presidente, o comandante das armas e o comandante da esquadra da marinha. Os corpos foram arrastados pelas ruas da cidade, marcando o esplendor da revolta.


Os principais líderes incluíam:

  • Félix Clemente Malcher – primeiro presidente cabano
  • Irmãos Francisco e Antônio Vinagre – líderes militares importantes
  • Cônego Batista Campos – líder religioso e político
  • Eduardo Angelim – último presidente da província sob o governo cabano


A Cabanagem foi extremamente violenta de ambos os lados. Estima-se que aproximadamente 30 mil pessoas morreram durante o conflito, o que representava cerca de 20% da população total da província na época. Essa proporção torna a Cabanagem uma das revoltas mais mortíferas da história do Brasil.

As mortes ocorreram por: 

  • Combates armados entre rebeldes e tropas imperiais 
  • Execuções sumárias de prisioneiros
  • Fome e doenças decorrentes da guerra
  • Repressão brutal após a derrota dos cabanos


A Derrota dos Cabanos

O governo imperial do Rio de Janeiro enviou tropas regulares e mercenários estrangeiros para sufocar a revolta. A resistência dos cabanos foi longa e tenaz, mas a superioridade militar imperial acabou por derrotá-los em 1840.

Eduardo Angelim, o último líder cabano, foi capturado e enviado ao Rio de Janeiro, onde ficou preso. A anistia aos prisioneiros da Cabanagem só ocorreu com a ascensão de Dom Pedro II ao trono em julho de 1840, no chamado "Golpe da Maioridade".



Consequências da Cabanagem

  • Apesar da derrota militar, a Cabanagem deixou marcas profundas na história da Amazônia:
  • Desorganização do tráfico de escravos na região e crescimento dos quilombos
  • Enfraquecimento da elite local tradicional
  • Reconhecimento da necessidade de maior integração do Grão-Pará com o restante do Brasil
  • Memória popular da resistência contra a opressão


A Cabanagem permanece pouco conhecida fora da região Norte do Brasil, mas é central para compreender a história de Belém, do Pará e da Amazônia. 

Ela demonstra que as "classes ínfimas" – como eram chamados os pobres na época – foram capazes de tomar o poder e governar, ainda que brevemente.

Em 2025, o Pará comemorou 190 anos da Cabanagem, com eventos históricos e culturais que buscam resgatar a memória desse movimento revolucionário.

A Cabanagem revela as profundas desigualdades sociais e regionais do Brasil no século XIX. Foi uma revolta que combinou lutas de classe, questões regionais e a luta pela inclusão política dos marginalizados. 

Sua história continua relevante para entendermos as tensões sociais e a formação da identidade amazônica brasileira. 

GILVANDRO TORRES

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