Na prática, a maioria dessas “peças de artilharia” seria feita de troncos de bacabeira ou outros troncos de madeira, dispostos em fileira para criar o efeito visual de uma bateria de canhões.
Esse engano só teria sido desfeito quando chegaram reforços vindos do Rio de Janeiro, munidos de binóculos melhores, que permitiram perceber que se tratava de um “espantalho” em vez de armas reais.
Mesmo assim, a estratégia adiou investidas, deu tempo para articulações internas e reforçou a imagem de Cuipiranga como um reduto resistente e quase invencível.
Por que a escola “esconde” essa história
Muitos livros didáticos de história do Brasil tratam a Cabanagem de forma genérica, focando apenas em Belém, datas e nomes oficiais, e acabam “apagando” estratégias criativas, como o canhão de madeira de Cuipiranga.
Essa omissão transforma a guerra em uma sucessão de batalhas entre “legalistas” e “rebeldes”, sem mostrar a inteligência, a criatividade e a cultura material dos cabanos pobres, índios e caboclados.
O truque dos cabanos revela, então, algo que os manuais raramente dizem: que a resistência popular não é apenas fúria, mas também tática e simbolismo — transformar troncos em “canhões” é uma metáfora de como o povo, sem recursos, usa o que tem para enfrentar uma máquina de guerra organizada.
GILVANDRO TORRES
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